Resenha: Esaú e Jacó, Machado de Assis


Olá, pessoal! Hoje estou aqui para podermos conversar sobre a minha mais recente leitura: Esaú e Jacó, de Machado de Assis.

Falar sobre a escrita do Machado é sempre uma oportunidade maravilhosa e um desafio imenso, além de genial, os seus livros são repletos de referências acerca de uma tradição literária que remonta séculos e séculos. Com esse livro não poderia ser diferente, claro, mas, mais do que isso, temos na construção do livro uma inspiração diretamente ligada à uma tradição bíblica sobre a primogenitura e a briga entre irmãos, que se repete incessantemente no texto religioso.

A história começa com Natividade e sua irmã, Perpétua, subindo o morro do Castelo para se consultarem com a cabocla a fim de tentar descobrir o futuro dos filhos gêmeos de Natividade. Durante a consulta, as únicas coisas que descobre sobre o destino dos filhos é que brigaram em seu ventre e que serão grandes no futuro, e isso é o suficiente para que a mãe apague toda a questão da briga e planeje uma vida grandiosa e espetacular para seus filhos.

Porém, o que realmente vai definir a vida desses irmãos é o fato de que eles brigam, desde o momento em que estavam na barriga da mãe até, provavelmente, o último dia de suas vidas. De um lado temos Pedro: monarquista e conservador, e do outro: Paulo, republicano e liberalista, tão idênticos fisicamente mas opostos na vida, na maneira de falar, de agir, e nos ideais que os definem. Para deixar tudo mais emocionante, ambos se apaixonam pela mesma mulher e ela se apaixona pelos dois, a duplicidade existente nesse amor é a tormenta de Flora, que não deseja nada além de poder juntar os opostos em um só corpo, pois aquilo que falta em um, existe no outro. Essa duplicidade e confusão emocional é a ruína da inexplicável Flora.

Não poderia fazer essa resenha sem comentar do nosso narrador, Aires, que ora é personagem e é narrado, e ora é narrador onisciente e onipresente. Essa dualidade machadiana, que está presente em toda a construção da narrativa, inclusive na estilística, é o que dá o tom ao livro.

Essa leitura foi muito diferente pra mim, porque eu conseguia perceber os jogos que o Machado estava fazendo comigo, me peguei rindo diversas vezes em momentos que nem eram tão engraçados, mas que era possível apalpar a ironia que estava lendo. Acho simplesmente incrível quando estou lendo algo e consigo entender o que está além da palavra e é por isso que esse livro alcançou um patamar de favorito pra mim.

É de uma simplicidade muito grande ler esse livro e pensar apenas nas questões históricas, o pano de fundo do livro é um Brasil que está em transição de monarquia para república, e esses temas estão ditos de maneira muito sutis para um leitor desatento, mas essa é só uma das facetas da narrativa. Essa obra, que conversa com todas as suas obras anteriores, desde o seu primeiro romance e os seus contos, está aqui para que possamos analisar a construção do mundo e a constituição do homem, este que é duplo na sua própria individualidade.

Apesar de amar o livro, não recomendo começar por ele caso não tenha lido absolutamente nada de Machado de Assis, como todo autor que possui uma carreira literária vasta, recomendo amadurecer juntamente com o autor, ou seja, ler seus primeiros livros, contos, peças de teatro, porque aí você vai conseguir absorver o tom da escrita e os não-ditos que maravilham gerações de leitores.

Alguém por aí já leu algo do Machado? Me conta aqui nos comentários!
Até o próximo post.

Resenha: O Coração é um Caçador Solitário, Carson McCullers

resenha-o-coracao-e-um-cacador-solitario

Olá, pessoal! Hoje estou aqui para podermos conversar um pouquinho sobre esse livro que li recentemente.
Recebi ele da TAG Curadoria em dezembro de 2018, mas só fui conseguir fazer a leitura esse mês, e foi uma leitura extremamente longa e difícil, vou explicar direitinho o porquê.

A história se passa no sul dos Estados Unidos, nos anos de 1938-1939 em um momento pós Grande Depressão, em que as pessoas estavam sofrendo com trabalhos exaustivos e salários extremamente baixos, ou seja, a economia do país estava quebrada, mesmo após algumas reformas e leis novas para tentar levantar o país.

É nesse clima que conhecemos o personagem que dá o tom da narrativa e do enredo do livro, John Singer, surdo. Singer vivia com seu amigo (também surdo) Antonapoulos, há 10 anos, a história começa a tomar seu rumo quando Antonapoulos começa a agir de maneira estranha e causar muitos problemas para seu amigo, um parente próximo então resolve interná-lo numa clínica psiquiatra que ficava muito longe do local onde eles moravam. Essa distância foi muito difícil para Singer, que resolveu se mudar da casa que eles dividiam e foi morar em um quarto alugado.

A partir dessa mudança, nós conhecemos os outros quatro personagens principais que vão preencher os espaços da narrativa: Mick, filha dos donos da casa onde Singer vai morar; Biff Brannon, dono do restaurante onde Singer faz suas refeições diárias; Blount, um homem com ideais Marxistas; e o Doutor Copeland, um homem negro que se tornou médico e que luta diariamente pela causa negra no país.

Esses personagens, tão diferentes entre si perante a sociedade, mas que carregam dentro deles a mesma miséria humana: a solidão, encontram em Singer aquele que seria capaz de acabar com essa solidão. É interessantíssimo como cada um deles constrói uma imagem diferente sobre quem é esse surdo e em como ele se torna importante na vida de cada uma dessas pessoas.

Carson McCullers foi simplesmente genial na sua construção de personagens, eles são opostos que se complementam, e eles são tão iguais na simples noção de serem seres humanos, que possuem desejos, vontade, sonhos... e que ao mesmo tempo estão sendo barrados pela sua cor, pelo status social, pelos seus ideais progressistas, pelas dificuldades do seu local de nascimento, do seu pertencimento social. Sem contar a questão do personagem principal ser surdo e não possuir uma voz narrativa, ou seja, ele é definido através das vozes e das percepções de outros personagens. Todos vão à ele, falam com ele, porque encontram nele aquele que sabe ouvir (mas ele é surdo!), e isso foi genial.

No começo da resenha eu disse que foi uma leitura longa e difícil, e isso ocorreu por ser um livro que não é pautado em ações e acontecimentos, mas nas questões de cada uma das personagens e das suas particularidades. Esse tipo de leitura ainda está sendo construída na minha vida de leitora, por sempre ler livros de aventura, ficção e etc., então é necessário ter-se em mente de que esse livro não é sobre acontecimento, é sobre pessoas.  A partir do momento em que se tem essa noção fica mais fácil apreciar e gostar desse livro.

Então, minha recomendação é: leiam, mas não esperem dele mais do que aquilo que já está presente na narrativa.

Alguém aí já leu esse livro? Me conta aqui nos comentários o que vocês acharam da resenha, vamos conversar.
Até o próximo post!

Resenha: O Sentido de um Fim, Julian Barnes


Olá, pessoal! Hoje estou aqui para comentarmos um pouquinho sobre um livro incrível que li no mês passado e que ainda está sendo digerido e absorvido pela minha vida de leitora, O Sentido de um Fim do escritor Julian Barnes.

O livro possui uma narrativa em primeira pessoa e é de caráter memorialista, ou seja, ele é contado por um personagem que já está em idade avançada sobre os acontecimentos de sua vida, desde a adolescência até o momento atual.

Tony Webster, personagem principal e narrador, divide o livro em duas partes, a primeira é centrada na sua adolescência por volta da década de 50 e 60 e em como ele foi se formando como pessoa, através de seus três melhores amigos, recaindo sempre sobre os temas e conversas que tinham como um grupo.

Assuntos como primeiras vezes, romance, morte, drogas e até mesmo suicídio são alguns que ele aborda e narra. A maneira que ele desenvolve os acontecimentos nessa primeira parte possui um panorama sobre como foi a adolescência da época e, até mesmo, sobre como esses mesmos temas estão presentes na nossa juventude atualmente, como dizia Belchior "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais".

A narrativa ganha uma nova voz quando chegamos na segunda parte do livro e nos encontramos com um personagem mais velho, e esse mesmo personagem que possuía tantas convicções quando mais novo, começa a repensar sua vida ao receber a herança de um dos seus melhores amigos da época da adolescência, depois de anos sem ter tido qualquer contato e com a notícia que o mesmo cometera suicídio, o personagem coloca em cheque todas as suas certezas e começa a ter o vislumbre de que uma mesma história possui outros lados.

Voltar ao passado nunca é fácil, principalmente quando percebemos que as nossas certezas não possuem mais sustentações suficientes para se manter em pé e você assiste cada uma delas caindo, ao conhecer os outros lados e outros fatos antes desconhecidos. Faz a gente pensar sobre a própria responsabilidade em determinados acontecimentos, e por um instante, analisamos não mais o que o outro fez e que gerou determinada atitude nossa, mas sim o que fizemos e como isso gerou atitudes que desconhecemos e sobre o qual não possuímos nenhum poder sobre, porque o passado não pode ser mudado.

Esse livro possui uma narrativa interessantíssima, eu, particularmente, amo livros memorialistas, em que o personagem conta sobre o passado, porque faz a gente refletir sobre a nossa própria vida e sobre coisas que a gente acha que são verdades absolutas. Julian Barnes escreve de maneira intrigante e o livro é repleto de frases sobre filosofia, vida e aprendizados, dá vontade de sair marcando o livro inteiro.

Mesmo em suas poucas 176 páginas ele possui uma profundidade imensurável, e Barnes desenvolve essa profundidade de maneira incrível. Eu ainda tenho diversas questões sobre determinados acontecimentos que ficam martelando na minha cabeça e que vão me fazer voltar à ele em algum momento futuro da minha vida. 

Recomendo muito não só a leitura, mas à ruminação de suas páginas, refletir sobre o livro pode ser algo delicioso se você se dedicar um pouco à isso.

Mas me contem vocês, alguém aí já leu esse livro ou pretende depois de ler a minha resenha? Comentem aqui embaixo, vamos conversar. Até o próximo post.

Resenha: Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently


Olá, pessoal!
Hoje estou aqui para mais uma resenha do blog, vou falar para vocês como foi a minha experiência lendo Douglas Adams pela primeira vez, e não foi com o seu livro mais famoso O Guia do Mochileiro das Galáxias, mas com esse livro incrível que vou comentar.
Vamos à resenha!

Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently é um livro maravilhoso, a sua história consiste basicamente em acontecimentos aleatórios que envolvem o personagem principal: Richard.
Num primeiro momento nós temos o personagem, um engenheiro de comunicação, em uma reunião com os professores de sua antiga universidade, eles estão jantando e a única coisa que ele consegue pensar é no quão atrasado ele está com o seu trabalho e com os prazos que o chefe dele deu para ele, e o quão o seu relacionamento com a irmã do seu chefe está indo por água a baixo pois ele está sempre pensando no seu trabalho, mas nunca o executando.
Nada de diferente na vida de qualquer trabalhador, apesar de todos os atrasos Richard volta para casa e de repente se vê como suspeito da morte do seu chefe que ocorrera na mesma noite e perto do lugar onde ele estava jantando. A partir desse momento a história toma um rumo altamente insano.

Claro que não poderia deixar de fora o personagem que dá nome ao livro, Dirk Gently é um investigador que estudou com Richard na faculdade, mas o seu trabalho nunca foi levado a sério, exatamente por trabalhar caçando gatinhos perdidos ou algo do tipo, dando golpes em todos os seus clientes e, claro, a sua maneira de juntar acontecimentos completamente sobrenaturais ou improváveis para explicar algo simples. Porém, na história do Richard, ele é a peça fundamental para ajudá-lo a entender o que está acontecendo em sua vida e até mesmo no seu trabalho, somente através do Dirk e de todas as suas loucuras, é que é possível explicar cada um dos acontecimentos do livro.

Uma coisa bem complicada ao ler esse livro é que a sucessão de eventos narrados não fazem sentido enquanto você vai lendo, mas no final todos os acontecimentos se encaixam perfeitamente.
Eu tive muita dificuldade ao longo da leitura de conseguir acompanhar o ritmo, Douglas Adams escreve de um jeito muito único, rápido, e, como eu disse, nada parece fazer muito sentido até chegarmos no final da história.

É como se você estivesse lendo uma receita de bolo, e no meio da receita estivesse dizendo que o bolo só vai ficar bom se você cantar uma música da Galinha Pintadinha enquanto bate os ovos, obviamente que você iria ignorar essa parte da receita por achar ser um engano, mas ela é exatamente a chave para o sucesso da receita.
Não sei se a comparação ficou boa, mas foi exatamente essa a sensação que eu tive quando no meio do livro me peguei lendo um artigo que o Richard escreveu sobre como as ondas sonoras musicais são parte fundamental da criação do universo.

Vou deixar vocês com essa reflexão, vocês acham possível essa teoria? Ela faz absolutamente todo sentido depois que você lê no livro do Adams, juro!
Espero que vocês tenham gostado da resenha, comentem aqui embaixo quem já leu o livro ou ficou a fim de ler depois daqui! 
A gente se vê no próximo post!

Eu amei te ver


E num estilo completamente Iorc eu descobri que eu amei te ver, e amaria te ver de novo. Depois de tantos anos, nessa eterna “idas e vindas” que só a gente entende, você resolveu aparecer pra transformar o meu mundo numa completa montanha russa em apenas um dia. Fico imaginando a loucura que não seria se você resolvesse ficar de vez, mas nós dois sabemos que você é livre demais, desapegado demais.
Essa história de que opostos se atraem é a maior verdade e a maior mentira que eu já ouvi, sim, você é completamente diferente de mim e a gente se atraiu de uma forma que nenhum dos dois consegue explicar, se bem que eu acho que a gente não liga mesmo e tá com vontade de curtir em vez de ficar buscando respostas; mas mesmo assim a gente se afasta, a gente vive a vida, o pano de fundo sempre é o outro, mas o papel principal nunca pertence a nenhum dos dois.
Eu até gosto dessa relação que a gente tem, mas quando eu te vi, eu senti uma saudade tão grande, uma necessidade de dizer “fica” e você ficar, construir um castelo de areia e morar dentro dele comigo. Eu queria tanto pedir para que não fosse embora e você sem se preocupar com mais nada largaria mão da passagem e nem ao menos se importaria com o avião perdido. Eu queria tanto te pedir me beija, e você me desse aquele beijo que só você me deu, que me tirou do chão, me tirou de mim...
Eu nunca te disse isso, por saber que as respostas não seriam as que eu esperava e por saber também que eu estaria pedindo demais para um cara que tem o espírito livre. Então eu te abracei, e coloquei nele todas as palavras não ditas e os sentimentos que teimam em não ir embora. Você se soltou de mim, não por vontade minha, claro, mas por um aviso do destino que estava ali para mostrar que a liberdade era algo presente entre nós dois.
Sorri olhando dentro dos seus olhos desejando pedir para ficar, mas dizendo ‘boa viagem’ no lugar, seu sorriso encantador chegou até mim e me respondeu “não vou voltar tão cedo, mas vou voltar, porque eu amei te ver”.